As duas primeiras estão na narrativa dos magos, exclusiva de Mateus (aliás, o NT interpretado versículo por versículo, do Champlin, traz vários fatos interessantes sobre a história do número de magos e seus nomes).
Os magos vieram do oriente para adorar o Rei dos judeus. Não vieram para adorar o seu rei, mas o rei dos outros...
Herodes queria encontrar o Messias para adorá-lo também, pelo menos é o que ele declara. Na verdade, ele o buscava apenas por interesse próprio (no seu caso, a intenção era matar o Rei, porque ele queria continuar como rei). Herodes diz que quer adorar o rei, mas na verdade ele adora muito mais a si mesmo, adora tanto a ponto de matar o Rei.
A terceira ocorrência do verbo adorar em Mateus se encontra no relato da tentação no deserto e quem pede adoração para si é ninguém menos do que o próprio diabo. E ele tem um argumento: o que Deus quer lhe dar exige um sacrifício grande demais. O diabo pode lhe dar tudo o que Deus lhe prometeu, mas a um custo muito inferior (pelo menos é o que ele quer que acreditemos), basta adorá-lo. O nascimento de Jesus está inexoravelmente relacionado com sua morte sacrificial (vide a declaração de Simeão).
A quarta ocorrência (não procurei as demais, se existem) aparece no capítulo oitavo, na descrição do leproso que procura Jesus. Aliás, Mateus apenas diz que o leproso adorou Jesus. Marcos diz que o leproso se ajoelhou e o adorou. Lucas diz que o leproso prostrou-se com o rosto em terra e adorou.
Esta é uma adoração a priori, incondicional e a ela se segue a frase "Senhor, se quiseres, podes (tens poder) para purificar-me".
O leproso (qualquer doença de pele como vitiligo ou psoríase eram classificadas como lepra, além da hanseníase) era impuro social e religiosamente. A lepra era vista como castigo divino, como no caso de Miriam contra Moisés. Seus portadores estavam condenados ao exílio forçado e a não mais poderem adorar no templo, além do isolamento da família e sociedade, sem possibilidades de trabalho, lazer ou dignidade.
O pedido do homem a Jesus não é a cura, mas a purificação. Na verdade, ele tem coragem para quebrar regras e se aproximar de Jesus, ele o adora como há muito teve que deixar de fazer, reconhece a soberania e poder de Jesus e faz um pedido cônscio de sua condição: "se quiseres..."
A resposta de Jesus é de pura compaixão. Se o leproso tinha quebrado uma regra ao se aproximar de Jesus, Jesus também quebra uma regra e põe a mão sobre o homem (como há tanto tempo ele deixara de sentir alguém tocá-lo...) e diz "Quero", sim essa é a minha vontade.
Ao olhar os presépios e observar a atitude de adoração dos que foram visitar o menino Jesus, precisamos refletir sobre a nossa própria atitude de adoração:
- crente mago: sábio, espiritualista, esotérico até, que adora o rei dos outros, mas não reconhece Jesus como seu próprio rei.
- crente Herodes: diz que quer adorar Jesus, mas só quer manter o seu próprio reinado. Adora a si mesmo.
- crente diabo (ixii...): quer as bençãos de Deus, mas sem a cruz. Está disposto a obter as bênçãos, ainda que seja dando uma curvadinha pro Coisa-ruim. Pior ainda, oferece isso pros outros, exigindo adoração de si mesmo como intermediados das bênçãos celestes.
- crente leproso (ia chamar de leproso curado, mas a atitude de destaque do homem é anterior à sua cura/purificação): reconhece a soberania e poder de Deus e O adora a despeito das circunstâncias.
No diálogo de Jesus com a mulher samaritana, há uma frase interessante: "vós adorais o que não conheceis..." Jo 4.22
Encerro ainda sobre adoração, lembrando de um personagem do antigo testamento, um homem abençoado por Deus e muito temente a Ele. Piedoso a ponto de oferecer sacrificios diarios por seus pecados e de seus filhos, pecados conscientes ou não. Abateu-se sobre ele uma desgraça como poucas vezes vista: quase instantanemente perdeu toda a sua riqueza, todos os seus filhos morreram, perdeu sua saúde também (às vezes ouvimos como consolo: mas o importante é que temos saúde... que consolo sobrou para Jó?) e qual foi sua reação? Ele raspa sua cabeça, rasga seu manto, veste-se de panos de saco, prostra-se em terra e ... adora a Deus. "O Senhor deu, o Senhor o tomou, bendito seja o nome do Senhor."
Sabe o que mais me impressiona na história de Jó? O final do livro traz outra frase marcante deste homem: "Antes eu te conhecia de ouvir falar, mas agora os meus olhos te vêem..." A reação de Jó à sua desgraça foi de alguém que conhecia a Deus "de ouvir falar..."
Como está o seu coração, adorador? O Pai procura adoradores que o adorem em espírito (não apenas na forma) e em verdade (não apenas de um sentimento real, mas de coerência com a vida). Ele encontra isso em você?
Fonte: Pr. Daniel Hioshimoto - Igreja Metodista Livre





